Uma nova motorista

Não sei qual foi o nível de dificuldade, mas eu levantei. Após uma noite inteira me remexendo de um lado para o outro, como se a ansiedade estivesse brigando (ou brincando) com a minha tranquilidade. Mas, de madrugada? Isso são horas para brincadeiras, ou brigas?

Seja lá o que for, amanheceu. Peguei o celular e na tela estava escrito: 08:13. Tudo bem, ele despertaria às 08:15. Sono era tudo o que eu tinha. Ah! E vontade, claro, de ficar na cama.

Havia um compromisso para aquele sábado de manhã. Depois de duas tentativas frustradas aquele dia poderia ser diferente. Desde janeiro eu estava nessa jornada que precisava ser cumprida. Aliás, eu tinha exatamente um ano para cumpri-la.

Enfim, tomei meu banho. Daqueles que costumamos dizer que “lavam a alma” para ver se eu acordava de verdade. Agradeci por mais um dia, e pela terceira oportunidade de conquistar esse sonho. Ergui a cabeça e decidi que queria mesmo, naquele sábado, concluir a tal jornada.

Após muitos minutos de espera o carro chegou. Vermelho, quatro portas e com um detalhe amarelo em volta. “Ufaa!”. Suspirei de alívio ao olhar para o celular e descobrir que ainda estávamos dentro do horário. Tudo indo bem. “Ainda bem!”.

– Bom dia, gente!

No carro havia mais duas moças e o motorista. Respirávamos o mesmo ar. Estávamos todos ansiosos e acredito que com medo também. Que sensação horrível. Minhas pernas pulavam de forma involuntária. Como se eu estivesse ligada na tomada, meu corpo tremia em choque.

A verdade é que eu precisava do meu corpo estático. Eu fazia de tudo para parar a tremedeira, mas não funcionou. Então tentamos um assunto no carro para aliviar toda aquela tensão. Falível a tentativa. O assunto era consumido pela quantidade de ansiedade presente no momento.

Chegamos ao nosso destino. Meu coração, conversando silenciosamente com Deus, pedia calma e paz. Ao ver uma fila de carros, cada um de uma cor, mas todos com o detalhe amarelo, minha mente deu um nó. E olha que ali ninguém estava competindo nada com ninguém. Meu maior adversário era meu próprio medo.

De roupa social, gravata, óculos escuros e papéis nas mãos. Assim passavam as duplas que estavam naquele local. Estremeci! Saímos do carro e procuramos uma sombra. Ao se aproximarem dois desses homens, comecei a tremer. “É agora!”.

– Bom dia! Tudo bem, gente? Quem vai ser a primeira?

A ordem foi resolvida no caminho. Eu seria a segunda. Enquanto a primeira passava por aquele momento, eu conversava com a terceira (e meu coração continuava com as petições). Em cinco minutos ela estava de volta.

Chegou a minha vez. Terceira chance. Poderia ser a última, ou apenas mais uma. Eu ansiava que fosse a última. Mas, tudo tem seu tempo e isso eu havia compreendido.

Entreguei meus documentos. Ajustei o banco, os retrovisores e puxei o cinto. Coloquei as duas mãos no volante para me certificar de que estava tudo bem antes de ligar o carro.

– Já casou?

Acredito que minhas duas alianças provocaram uma dúvida naquele moço alto de cabelos brancos e óculos escuros. Aquela pergunta soou como “fique tranquila, vai dar tudo certo!”, a tremedeira sumiu. Eu estava pronta, pronta para completar minha jornada naquele sábado.

Liguei o carro, coloquei a primeira marcha, abaixei o freio de mão, sinalizei, olhei para fora e comecei o meu tão temido: terceiro exame de direção veicular.

Fiz exatamente o mesmo trajeto que havia feito no primeiro exame. Creio que para provar para mim mesma que minha primeira tentativa poderia ser – de fato – superada.

Viramos à direita, seguimos e viramos à direita de novo. Ao subir o morro fui orientada para realizar um “controle de embreagem”. Nessa hora eu não podia tremer, não mesmo. Toda a concentração do meu corpo se localizava no meu pé esquerdo.

– É isso aí, parabéns, menina!

“Ufaa!”, respirei aliviada.

O moço do cabelo branco que estava ao meu lado era simplesmente um moço comum. Dispunha de poderes devido ao seu cargo na sociedade, mas, também, dispunha de uma simpatia inigualável. Não imaginei que seria assim. Fiquei tão tranquila, meu coração sorria calmamente.

Depois de concluída a primeira parte desse desafio, fui encarar a segunda. Esperei por volta de trinta minutos. Eu precisava manter a calma, confesso que não foi difícil.

Quando chegou a minha vez, eu sabia que em cinco minutos eu poderia ter meu sonho realizado, ou não. Entreguei novamente meus documentos e ajustei o que tinha que ajustar.

– Tathiana com “h”?

Pronto. Mais uma pergunta metafórica. Eu sabia que ela significava a mesma coisa daquela outra (“Já casou?”). Fiquei mais tranquila do que já estava.

Ao terminar a manobra de colocar o carro entre os cones, ouvi o moço me pedindo para desligar o carro, pois eu estava aprovada.

“Glória a Deus!”, foi o que consegui falar. Saí do carro em lágrimas e com o papel nas mãos com “duas” aprovações (por causa das duas etapas do desafio). Mais do que depressa peguei o celular para avisar àqueles que estavam almejando essa realização junto comigo.

Que alívio foi poder acordar na segunda-feira sem a preocupação de ter aula de direção. Que felicidade é ter um sonho realizado.

Só quem ‘reconhece o Senhor em todos os caminhos’ (Pv. 3:6) sabe o que é aprender e ter experiências com Ele antes de uma conquista.

‘Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém.’ (Romanos 11:36)

Com carinho,