A criança que há em mim

Os sonhos de adulto se misturam com os sonhos de criança, da criança que fui, da criança que sou. Na verdade, a palavra ‘adulto’ ainda me assusta um pouco. Quando eu era criança, ser adulto, para mim, era coisa chata. Adulto era pessoa séria, saía para trabalhar, não brincava, não corria… Enfim, a vida do adulto era bem chatinha sob meu olhar, contudo, paradoxalmente, eu imitava muitas coisas que eles faziam. Coisas de criança.

Aproveito o clima do Facebook para colocar uma foto – uma das minhas preferidas – da minha infância no perfil. Outubro traz mesmo esse ‘clima infantil’, né? Acho tão bom! Dia 12, então, para alguns adultos, é dia de nostalgia, dia de comparar gerações (‘quando eu era criança… ’).

Observei bem a foto enquanto a colocava. Mudei muito. Continuo pequena, é verdade, mas nem tão pequena quanto (risos!). A roupa, as cores, o sorriso (forçado para a Sonora), a paixão pela fotografia. Essa foto traz uma série de lembranças boas.

Além de observar, pensei bem, e, na verdade, acredito que infância é a fase na qual a alma tem maior liberdade. ‘Coisas de criança’, dizem os mais velhos. Tudo tem gosto de brincadeira e ficar de castigo é um verdadeiro filme de terror.

Lembro com carinho da minha infância; a curiosidade que carrego hoje veio de lá. Curiosidade essa que me fez aprender costura, tricô, crochê e muitas outras ‘coisas de mãe’. Abandonei algumas dessas coisas com o tempo, no entanto, as lembranças dos momentos sempre me acompanharão.

Aprendi a amar artigos de papelaria ainda na infância. Reciclagem, pintura, desenho (já vendi desenhos!), toda a paixão que tenho por artesanato nasceu na minha infância. Lá aprendi, também, a querer meu próprio dinheiro, desenvolvi mania de vender tudo o que eu fazia (e, ó, eu tinha compradores, viu?!).

Na infância, quis ser manicure e ser exatamente como minha mãe; quis, também, ser cabeleireira, porque gostava de mexer em cabelos; quis ser professora, porque ‘brincar de escolinha’ era o máximo! Quis vender livros, nos quais eu escrevia breves histórias e as desenhava, etc… Eu tinha infinitas possibilidades. Liberdade de escolha, sabe?

O mais legal disso tudo é enxergar, hoje, o quanto minha infância ainda é presente em mim. É legal, também, ver como que várias sementinhas de lá encontraram bons terrenos e se desenvolveram. Porém, agora, os vinte me apontam que não sou mais criança, não posso mais brincar de boneca.

Eles me dizem, ainda, que as preocupações são outras: carreira, casamento… ‘Não! Esperem um pouco, 20, quem disse que não posso mais ser? Vocês não podem me dominar assim. Faço questão de ser criança’. Faço mesmo questão de me lambuzar com a inocência que a criança tem, de acreditar que tudo vai ficar bem; de misturar minha vida ‘adulta’ com a vida da criança que há em mim.

Essa mistura de fases, momentos vividos e lembranças me fazem bem. Gosto muito de memórias. Gosto muito de voltar à infância, revivê-la, ou melhor, vivê-la. ‘E o que me faz viva são meus sonhos e minhas pequenas esperanças; É não ter abandonado a menina que ainda mora dentro de mim.’ (Cidinha Araújo). E para demonstrar bem o que eu sinto, passo a palavra agora ao querido Drummond:

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

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Orar em Nome de Jesus

 

Nas Sagradas Escrituras, existe um livro que se distingue de todos os demais livros da Bíblia, pelo fato de conter apenas orações. Trata-se dos Salmos. À primeira vista, é deveras admirável encontrar-se um livro de orações na Bíblia. Afinal, as Sagradas Escrituras são palavra de Deus dirigida a nós. Orações, no entanto, são palavras humanas. Como elas podem constar na Bíblia?

Não nos deixemos confundir: também nos Salmos a Bíblia é palavra de Deus. Então as orações dirigidas a Deus seriam palavras do próprio Deus? Isso nos parece difícil de compreender. Nós somente o entenderemos se considerarmos que a única maneira de aprender a orar é orando com Jesus Cristo. A verdadeira oração é, portanto, a palavra do Filho de Deus, que vive conosco, dirigida a Deus, o Pai, na eternidade.

Jesus Cristo levou toda aflição, toda alegria, toda gratidão e toda esperança da humanidade a Deus. Em sua boca, a palavra humana torna-se palavra de Deus. E, se orarmos com Ele a sua oração, a palavra de Deus volta a ser palavra humana. Assim, todas as orações da Bíblia são orações que nós oramos juntamente com Jesus. Ele nos inclui nessas orações e nos leva à presença de Deus. Caso contrário, não serão orações legítimas, pois somente em Jesus Cristo e com Ele podemos orar de verdade.

Se, pois, quisermos ler e orar as orações da Bíblia, especialmente os Salmos, então não devemos começar indagando o que elas têm a ver conosco, mas devemos perguntar o que elas têm a ver com Jesus Cristo. Devemos investigar de que maneira podemos compreender os Salmos como sendo palavra de Deus. Somente então poderemos orá-los.

Portanto, não importa que os Salmos expressem justamente o que sentimos no nosso coração agora. Se quisermos orar de verdade, talvez seja necessário orarmos contra o nosso próprio coração, pois não importa o que nós desejamos orar neste momento, mas, sim, aquilo pelo qual Deus quer ser invocado por nós. Se dependêssemos unicamente de nós mesmos, com certeza, acabaríamos reduzindo, muitas vezes, o Pai Nosso à quarta prece, ao pedido pelo “pão nosso de cada dia”. No entanto, a vontade de Deus é outra. Nossa oração deve ser determinada pela riqueza da palavra de Deus, jamais pela pobreza de nosso coração.

(…) Que graça imensurável: Deus nos diz como podemos falar e ter comunhão com Ele! E nós podemos fazê-lo orando em nome de Jesus Cristo. Os Salmos nos foram dados para que aprendamos a orar em nome de Jesus Cristo. (…) O Saltério é a oração da comunidade de Jesus Cristo; ele deve acompanhar o “Pai Nosso”.

Texto adaptado, extraído do Livro “Orando com os Salmos” de Dietrich Bonhoeffer.

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