Uma simples conversa

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Certo dia, dentro do ônibus, um senhorzinho sentou ao meu lado (não havia outras cadeiras disponíveis). Enquanto eu lia um livro de poesia, ele me observava.

Fechei o livro por alguns minutos devido a claridade do sol que incidia nas páginas amareladas do meu Coração disparado, e ele aproveitou para puxar uma conversa.

“O que você faz com a sua vida?”, ele me perguntou. Estranhei, a princípio. O que eu faço com a minha vida? Que pergunta diferente, estranha.

Esperei um pouco para que ele se corrigisse, mas ele me encarava com ternura esperando a resposta. Então o questionei: “Como assim? O Senhor quer saber o que eu faço, como curso… essas coisas?”

Então ele abaixou a cabeça, suspirou e respondeu: “Na verdade, gostaria de saber o que você tem feito com a sua vida, porque já sou bem velho e várias vezes me pego relembrando o passado. Faço essa mesma pergunta para mim. Reflito muito sobre o que eu fiz com a minha vida, olho pra trás e vejo toda uma trajetória…”

Percebi que ele falava de suas memórias. Aguardei mais um instante para que ele falasse um pouco mais, no entanto, ele se silenciou.

Tentei organizar bem as ideias na minha cabeça e escolhi rapidamente cada palavra para respondê-lo. “Bom, não sei bem o que tenho feito com a minha vida, mas acredito que tenho acertado nas minhas escolhas”.

Como quem segura um copo de cristal com cuidado para não quebrá-lo, pensei mais um pouco antes de continuar. “Escolhi um curso e estou gostando muito; atualmente é o que mais tem tomado conta do meu tempo, logo, da minha vida”.

Então ele interrompeu meu pensamento e quis saber qual era o curso. Letras, respondi.

“Ah, você faz Letras. Que belo curso. Na época em que eu era moço, era meu maior sonho! Boa escolha, menina. Você gosta de livro, não é mesmo? O que você está lendo aí?”. Ele sorria sobremaneira de forma doce.

Seu passado se misturava ao ar daquela tarde. Sua juventude invadiu aquele ônibus, mais precisamente, a nossa conversa.

“Adélia Prado. Poesia. Amo poesia”, respondi sorrindo e mostrando a capa do livro.

Ainda curiosa com a primeira pergunta feita, questionei: “Mas, por que o senhor me perguntou o que eu tenho feito COM a minha vida, e não DA minha vida?”

Seu sorriso acompanhado de uma silenciosa risadinha não escondia, ele achou aquela observação interessante, até porque estava conversando com uma estudante, né? Então ele respondeu: “Porque a gente tem que tecer bem a vida da gente. É bom fazer o que a gente gosta, mas é melhor ainda gostar do que a gente faz. Fazer a vida ficar boa, sabe?”

Eu já imaginava que daquela conversa eu ganharia bons conselhos, na verdade, eu ganharia experiências.

Ele desceu do ônibus. Eu pensei muito no que ele disse, sobre gostar do que a gente faz… Acho que gosto muito do que faço. Confesso que a pergunta daquele senhorzinho mexeu comigo.

Daquela simples conversa, daqueles trinta minutos, concluí que o anseio pelo futuro não deve ofuscar o brilho do presente. Cada dia foi minuciosamente escrito por Deus, é preciso vivê-los, um de cada vez.

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