Sutilezas

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Em meio a tantas correrias, às vezes não temos tempo para admirar a bondade de Deus. Isso acontece, principalmente, quando a mesmice domina nossos dias, tirando de cada um deles — aos poucos — a beleza dos detalhes.

Chamo isso de rotina. Não gosto muito dessa palavra, mas constantemente me vejo envolvida por ela.

A rotina nos tira o prazer de olhar à nossa volta. Ela nos impede de olhar para o céu durante um longo tempo, e também não nos permite perceber se, por onde a gente passa, existe alguma flor brotando num canto; Ou se, ainda, existem ninhos nos galhos das árvores que nos cercam.

A verdade é que não temos tanto tempo assim para sutilezas.

Lamentável!

Porque eu acredito que a bondade de Deus não está contida somente em grandes feitos… Tolice é pensar que Deus fala apenas por meio de barulhos e sons estrondosos.

Para mim, na verdade, a bondade de Deus se revela muito mais àqueles que a enxergam nos detalhes sutis de cada dia; É bem quando ‘não temos tempo’, que Deus mostra sua bondade, e nós deixamos passar.

Me lembro [sempre] dos conselhos de Jesus. Quanto às sutileza, lembro-me de quando Ele nos pediu para observarmos as aves, os lírios… Jesus ensinou, com isso, que importante mesmo é aprender com Deus através da criação.

Então, que possamos juntos, a cada passo, ‘contemplar a bondade do Senhor e buscar sua orientação’ (Salmos 27:4), sempre!

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O som do amor

Era uma manhã comum, o inverno se aproximava… Logo cedo eu estava de pé, ou melhor, de joelhos dobrados reconhecendo minha fragilidade diante da vida.

Calmamente, minh’alma pedia pelo som do amor de Deus, assim como o salmista fez há anos:

Faze-me ouvir do teu amor leal pela manhã…

De repente me vi pensando nesse som. Mas o que seria o som do amor de Deus? O amor, por acaso, emite som? Seria um simples sussurro? Um barulho? Ou, talvez, uma música?

Ouvir do amor de Deus pela manhã…

Imagino que seja o som do sol se espreguiçando bem cedinho, após uma noite escura, trazendo luz e colorindo tudo à sua volta outra vez;

Ou, quem sabe, o som dos pássaros brincando nos jardins da casa de Deus;

Pode ser, ainda (ou também!), o som das flores — perfeitinhas como são — ao desabrocharem, trazendo mais esperança, trazendo sonhos…

Enfim, pela manhã toda a natureza canta o amor de Deus, por uma razão simples: a alegria renasce todos os dias. Bem cedinho, junto do amanhecer, as misericórdias de Deus se renovam.

Há esperança! Afinal, como o salmista disse, o amor de Deus é leal, inteiramente fiel.

Minh’alma ficou leve. Ouviu o som do amor de Deus e dançou.

Me senti ainda menor, como quem cabe na palma da mão de Deus. Reconheci que não há lugar melhor. Sua música é permanente, basta uma maior proximidade para ouvi-la.

Então, continuei minha prece:

Mostra-me o caminho que devo seguir…

Estava, portanto, pronta para mais um dia na companhia de Deus.

[Salmos 143:8]

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Ler é descobrir

Segundo o dicionário, ler é “distinguir e saber reunir as letras; percorrer com os olhos o que está escrito ou impresso, em voz alta ou baixa; tomar ou dar conhecimento do conteúdo de um escrito”. No entanto, acredito que ler está um pouco mais além.

Curiosa que sou, passeei pela Biblioteca em busca da História da Leitura. Chega a ser divertido, e até metalinguístico, entrar em um lugar de leitura em busca da história dessa atividade. Antes de afirmar que ler é importante, eu quis saber sobre tal importância ao longo da história. Amo descobrir; e um título interessante chamou a minha atenção.

Já nas primeiras páginas do livro Leitura, história e história da leitura, descobri que nem sempre o ato de ler foi visto com bons olhos. Por volta do século XVIII, a leitura era considerada prejudicial à saúde. Segundo o médico suíço Tissot, em seu livro A saúde dos homens de letras:

Os inconvenientes dos livros frívolos são de fazer perder tempo e fatigar a vista; mas aqueles que, pela força e ligação das ideias, elevam a alma para fora dela mesma, e a forçam a meditar, usam o espírito e esgotam o corpo; e quanto mais este prazer for vivo e prolongado, mais as conseqüências serão funestas. […] O cérebro que é, se me permitem a comparação, o teatro da guerra, os nervos que dele retiram sua origem, e o estômago em há muitos nervos bastante sensíveis, são as partes que mais sofrem ordinariamente com o trabalho excessivo do espírito; mas não há quase nenhuma que não se ressinta se a causa continua a agir durante muito tempo. [1]

Para essa época, a leitura não era vista somente como algo que prejudicava a saúde, mas também a moral — principalmente os romances. Isso porque as pessoas queriam trazer para a vida real aquilo que liam nos livros. Já que o livro carregava a capacidade de difundir mais amplamente as ideias que o discurso oral, os leitores perceberiam desigualdades socais e descontentes procurariam alterar seus estados, gerando conflitos.

A leitura, então, passou por várias revoluções. A primeira foi a partir da impressão, invenção de Gutenberg (por volta de 1439 na Europa) que possibilitou maior número de cópias de livros. O primeiro livro impresso pelo inventor alemão foi a Bíblia, a qual ficou conhecida como a Bíblia de Gutenberg.

Outra revolução ocorreu no campo da leitura individual, que era comum ser feita oralmente. No entanto, nos séculos XII, XIII e XIV ela passa a ser visual (silenciosa), portanto, mais livre, reservada e íntima. Essa leitura silenciosa aumentou o acesso à leitura, foram criados: sociedades da leitura, clubes do livro, bibliotecas de empréstimos.

Antes as pessoas liam e por meio da leitura oral provavam às outras que possuíam retórica. Porém, letrado passa a ser quem absorve o máximo de sua leitura reservada, e aquele que precisa ler em voz alta para entender é considerado iletrado. A leitura individual ganha adeptos, tanto que é feita até hoje.

A verdade é que as revoluções na leitura não param por aí, não são apenas históricas, mas também cotidianas, inclusive estamos em uma. Jorge Luis Borges, por volta de 1972, quando disse sobre a extravagante felicidade de ter todos os livros reunidos em um só lugar, falava das bibliotecas. No entanto, talvez hoje tenhamos esse acervo online.

Muitos leitores ainda não são adeptos da leitura digital. Acho que ainda faço parte desse “muitos”. Tal “extravagante felicidade”, que se refere às bibliotecas, envolve os apaixonados por leitura até hoje, como eu. Impossível não se encantar em uma Biblioteca cheia. Como um céu pontilhado de estrelas, os livros brilham e sempre convidam a um mundo novo, até porque Biblioteca, para mim, é lugar de descobertas.

Assim começou minha paixão pelo mundo das palavras: na Biblioteca. Discorri historicamente o que aconteceu com a leitura até chegar às minhas leituras. Em 2002, no ensino fundamental, me apresentaram um lugar mágico. Jamais será esquecido o “dia da biblioteca”, nesse íamos (a turma e a professora) até a biblioteca, uma vez por semana, ouvir uma história e adotar um livro.

Toda semana eu tinha uma história para ler. Não parei mais, como Borges (1972) disse, conheci a “extravagante felicidade” proporcionada pela biblioteca. Como antigamente, comecei minhas leituras de forma oral. Lia para todos de casa, até para meus brinquedos. Depois comecei a inventar minhas próprias histórias. Eu sabia que brincar com as palavras era algo legal demais!

Passei todo o ensino fundamental visitando bibliotecas. Depois que desenvolvi, como na história, minha leitura reservada (visual e silenciosa), descobri que eu podia imaginar muito mais. Não havia mais volta: eu estava submersa no mundo das palavras. Passei a concordar com Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”, não só um país, mas o mundo.

Comecei a não apenas adotar livros, mas também a tê-los. Conheci outros títulos, outros gêneros e, assim, um pouquinho mais de outros mundos. Contos, poemas, romances e outros, todos me fascinavam (e fascinam!). Não me lembro de terminar uma leitura e não aprender algo, sempre que leio descubro alguma coisa.

Assim como a leitura, de um modo geral, passa por mudanças, a minha também. Ler é descobrir. E, como o dicionário nos assegura, descobrir é “Tirar o que cobre, o que protege; encontrar o que era desconhecido, que estava escondido; achar”. É isso que carrego comigo — além dos livros —, que ler é descobrir. Ler é encontrar o que era, até então, desconhecido.

Acho mágico! O fato de outra pessoa colocar em palavras uma maneira diferente da minha de enxergar o mundo, de enxergar a vida é encantador. Desde pequena, aprendi a colocar “ler” na minha lista de atividades favoritas. E é assim até hoje, não tenho pretensão de que seja diferente.


[1] TISSOT, Simon-Andre De la santé des gens de lettres. Laussane, chez Grasset & Comp et à Lyon, chez Duplain, 1775. (pág 20 – 26)

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Janela

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Bem aqui dentro, num canto singelo da alma, coloquei uma janela

Escolhi deixá-la sempre aberta, faço isso pra não me adoecer

Porque alma sem estações, enferruja;
E alma sem natureza, entristece;

É pra isso a janela: pra encher de vida a vida da gente!

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