Momentos

Alegria toma conta, me sinto especialmente feliz por alguns motivos bobos, motivos meus; tão meus…

Minh’alma brinca, o riso é fácil por alguns motivos efêmeros, motivos meus; tão meus…

Guardo esses momentos como a criança guarda os brinquedos depois da diversão

Guardo esses momentos e deixo-os bem aqui, do lado de dentro, no coração

São coisas minhas, momentos meus; tão meus que se eu contar, francamente, ninguém entende!

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Meia volta

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Retornar nem sempre é fácil, seguir em frente parece ser muito mais confortável.

Inclusive, a maioria das pessoas nos aconselha a fazer exatamente isso: seguir. Mas essa mesma maioria dificilmente vai nos dizer para seguir depois de um retorno.

Mas, e se o caminho não estiver adequado aos passos? E se as circunstâncias nos indicam na verdade a necessidade desse tal retorno, o que fazer?

Voltar atrás, por vezes, parece ato covarde. Sinceramente não vejo assim. Talvez covardia seja fechar os olhos e ignorar a necessidade da volta. Da meia volta.

Não acredito que a vida tenha sempre uma única direção; às vezes a pessoa que fui ontem era mais sensível que a que sou hoje. Então por que não posso tentar ser aquela pessoa melhor de antes?

Não é vergonhoso recomeçar, ou melhor, não é vergonhoso dar uma meia volta antes de recomeçar.

Vejo que a vida é construída dia-a-dia, sabe? A minha é assim! Não temos um passo-a-passo de como fazer tudo o tempo todo. O que temos, graças a Deus, são chances para melhorar, chances para demonstrar amor…

E isso não implica, necessariamente, uma busca pelo ‘avanço’. Até porque de nada adianta carregar peso nos ombros ao longo de todo o caminho, sabendo que voltar e aliviar a alma é algo muito mais necessário.

Eu não tenho medo de voltar atrás, não me sinto covarde. Tenho medo é de caminhar, caminhar, caminhar e simplesmente não sair do lugar. Voltar para buscar um fardo mais leve, um jugo mais suave, é realmente um ato nobre (e um conselho de Mestre).

Com a alma leve, o recomeço é mais simples!

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Meu Ideal Seria Escrever…

(Rubem Braga)

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.

E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

[BRAGA, Rubem. “50 crônicas escolhidas”. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p.161-163]

Da série: Imagens que falam por mim

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Essa máquina tem história para contar. Não sou do tempo dela, mas ela faz parte do meu tempo. Era do meu pai, que percebeu meu gosto pela escrita e a me deu de presente.

Como não amar um presente assim? Ela é linda!

Ganhei há anos. No entanto, por falta de espaço em casa, tive de escondê-la bem no fundo do armário.
Mas hoje foi um daqueles dias em que acordamos com vontade de revirar as coisas, sabe? Então me lembrei desse ‘artigo de luxo’, e decidi colocá-lo na estante, para que me inspire, para que eu possa ver sempre.

E ainda, há um outro pequeno detalhe na foto, que também ganhei de presente. Minha família, que me conhece melhor que qualquer outra pessoa, sabe das minhas paixões, e o melhor: as alimentam.
Essa caneta tinteiro — linda — eu ganhei do meu irmão assim que passei no vestibular (tem, inclusive, meu nome gravado nela).

Tirei essa fotografia hoje pela manhã para deixar a imagem registrar um pouco do que nem eu mesma, com palavras, consigo descrever.

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A semente

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Sonho é uma semente que vive dentro da gente. Certa vez aprendi que as sementes ‘dormem’ e que existe um tempo certo para a germinação. Sendo assim, a comparação é mais certeira ainda.

(Amo metáforas!)

Já imaginei meu coração como um imenso terreno. Aí, em cada pedacinho dele, uma semente plantada. Algumas sementes não sobrevivem, outras se tornam pequenos arbustos, outras, árvores enormes.

Amo regar essas sementes. A água mais doce que desce sobre elas é a oração. Faço prece para que germinem, para que o Grande Jardineiro aprove cada uma.

Muitas sementinhas surgem de surpresa, parece até que vêm do próprio terreno. Outras, eu mesma coloco aqui. Nem sempre são boas, algumas, inclusive, morrem com o tempo.

Não sei a qualidade de cada semente. O Grande Jardineiro sabe! Confio nele. Deixo que ele — especialista em plantações — cultive as sementinhas em meu lugar.

Porém, não é fácil. Tenho dificuldade para esperar ‘o tempo de plantar, e o tempo de colher’. Bem queria que o processo ocorresse da noite para o dia, no entanto, já aprendi que não é assim.

Quanto mais água doce, mais seletivo o terreno fica. Algumas sementinhas sobrevivem e crescem, outras somem. Acho que isso é bem natural.

Em certos momentos me pego pensando: ‘o que aconteceu com aquela sementinha que plantei em 2008?’; ou ainda: ‘esta sementinha plantei em 2007, veja só, agora que está germinando!’. São processos, fazem parte da vida.

Recentemente vi crescer algumas coisas em meu coração. Hoje até posso descansar sob a sombra de algumas árvores resultantes de sementinhas plantadas outrora. Coisa linda!

Alguns dos nossos sonhos realizados não produzem benefícios apenas para nós mesmos. As árvores não escolhem as pessoas para sombrear, elas simplesmente sombreiam o que estiver por perto.

Acho que esse é um dos critérios do Grande Jardineiro — que não é egoísta. Penso que quando ele escolhe a semente, ele pensa também nas pessoas que serão alcançadas pela árvore, pelo refrigério de sua sombra.

De uns tempos para cá, venho percebendo o quão importante para o coração são as águas doces. Na medida certa, sabe? Porque não adianta despejar água sobre a semente errada, é preciso despejar gotículas para descobrir a semente certa.

Sonhos sempre existirão, são vida para o coração. E, olha, acredito muito que o Grande Jardineiro gosta de cuidar deles.

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