Reecontro

Um abraço. Um abraço apenas… Isso era o que aquele rapaz havia pedido ao pai.

A história é longa…

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Rick era um jovem mediano que pouco se queixava de sua aparência. Satisfeito com seus estudos e emprego, pouco reclamava de sua vida pacata. Satisfeito, é a palavra adequada para ele.

Sua irmã mais nova tinha a personalidade parecida e juntos caminhavam pela vida. Inclusive, ela o ajudava a ser uma pessoa ainda mais tranquila.

Como tudo na vida, ele passava por altos e baixos. O fato de a vida não seguir um percurso retilíneo dá um certo alívio, pois são as curvas que renovam a nossa mente. Rick sabia disso.

Anos se passavam e nada de novo acontecia em sua vida. Pois bem… Num dia comum, nesses em que nada é previsto, Rick desabou em seu quarto. Sozinho.

Ajoelhado, próximo à sua cama, começou pensar. Passou um filme em sua cabeça, no qual o protagonista era ele mesmo. Suas lembranças, capazes de percorrer grandes distâncias, vieram ao seu encontro, abracaram-no com força.

Mesmo sabendo que cada dia tem seu valor, que cada momento da vida tem seu brilho, sentiu certa nostalgia de outrora. Mas, afinal, por que Rick, um rapaz tão satisfeito com tudo, estava com tanta tristeza assim, tão de repente?

Saudade. Era esse o sentimento incômodo que lhe invadiu o ser.

Diante de Deus, começou a chorar. Não saíram palavras de seus lábios, mas ele confiava que suas lágrimas seriam entendidas. Afinal, a saudade que sentia era de Deus. Saudade de passar tempo com Ele, de tê-lo como seu bem maior, como sua alegria.

Embora estivesse satisfeito com sua vida, sabia que quanto mais distante de Deus, mais vazio e acomodado ele ficava. Isso chegou ao ponto de ele não aguentar mais a ausência da presença que lhe movia.

Rick prometeu para si mesmo que correria menos atrás do vento, que sua corrida seria, então, por algo que realmente lhe faria bem, por algo que valesse a pena.

Ao final de sua prece, pediu um abraço, um abraço apenas era o que aquele rapaz pediu a Deus.

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Viragem

e5b4277d6f99fd143959a85d6611967976ce9464Era 31 de dezembro e ela não sabia o que fazer. Olhava para trás e chorava.

Sentada em seu sofá, em sua sala escura, os pisca-piscas de Natal dos vizinhos eram as únicas luzes que alcançavam seus olhos embaçados.

Suas lágrimas desciam ao sabor misto da alegria e da angústia. Alegria porque, é claro!, passou o ano inteiro com saúde, não podia reclamar.

Mas a angústia lhe acometeu porque as metas que ela havia traçado no ano anterior não foram cumpridas.

Foram 365 dias de oportunidades, mas nada aconteceu!

O papel no qual ela listou seus planos era meio amarronzado com umas flores vermelhas nas bordas. O título era ‘Para se cumprir’ e ao lado estava ‘2014’.

A lista não era grande, mas os dias se passaram e ela nada mais fez que ficar sentada em sua comodidade, esperando que as coisas acontecessem de repente. Nada mudou em sua rotina. Ela não mudou!

Sua distração favorita era rolar as timelines das redes sociais para enxergar a alegria e as conquistas dos outros – afinal, na internet só se vê gente feliz e de bem com a vida. Isso a deixava ainda mais alheia a tudo.

Ao longo do ano, quando saia de casa, vestia uma máscara que lhe escondia bem as verdadeiras sensações.

Justamente por isso que a angústia lhe invadiu o coração. Ela olhava pela janela e o brilho dos dias não lhe convidavam, preferia, no entanto, fechar os olhos e apenas idealizar. Pobre menina, esqueceu-se de viver.

Todas essas lembranças se misturavam em sua mente agitada e por isso chorava. O que a havia deixado tão sem vontades assim?

É verdade que a vida já lhe quebrou as expectativas várias vezes, mas isso não é motivo para estagnar-se. A vida passa e não espera, é preciso acompanhá-la.

O relógio marcava 23 horas e 50 minutos.

Rapidamente ela se levantou, enxugou as lágrimas, pegou o papel amarronzado do ano anterior, leu, releu e refez suas metas. No lugar de ‘Para se cumprir’, colocou ‘Vou me esforçar para…’ e, abaixo, listou coisas novas.

Ao final de sua pequena lista, colocou os seguintes dizeres:

‘Pois em ti está a fonte da vida; graças à tua luz, vemos a luz.’ (Salmos 36:9)

Assim, respirou fundo e estava se sentindo mais confiante para o próximo ano, para se esforçar por suas metas. Em Deus estava a sua fonte, então, bastava-lhe viver dEle.

O relógio marcou meia noite. Ela abraçou 2015 com tudo!

__________
* Viragem: s.m. Ato ou efeito de virar(-se). Mudança de direção dos automóveis.
Fotografia. Operação que consiste em modificar a tonalidade das provas, passando-as por diversos banhos.

O coração

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Um coração, criado antes da criação,
foi gerado por amor à humanidade

Esse coração veio à luz
todavia, conheceu nossa obscuridade

Por isso, o mesmo coração parou de bater
por três dias não mais houve embalo, nem musicalidade

Céu sem cor, terra sem ação

Contudo, o forte coração voltou à vida
missão cumprida! Uniu a humanidade à eternidade!

Tathiana Oliveira
Belo Horizonte, 2014

O cuidado

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Ele cuida dos passarinhos.
Ele veste os lírios do campo.
Ele pinta um nascer e um pôr-do-sol por dia…

Tudo está sob Seu domínio e cuidado!

O sol se vai, o céu escuro se torna,
então Deus acende as estrelas,
chamando-as, uma a uma, pelo nome!

Tudo está sob Seu domínio e cuidado!

Tathiana Oliveira
Belo Horizonte, 2014

A pretensão do saber

 

Já há alguns dias, venho refletindo no quão saboroso é o conhecer; aprender novas coisas é um dom!
No entanto, a linha entre o ser sábio e ser pretensioso é muito tênue, e, às vezes, essa linha some. É nessa fusão que mora o perigo!

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Deixamos, pois, de lado a humildade e por ter noção de algumas coisas, somos levados a inferiorizar aqueles que pensamos não saber aquilo que aprendemos.

Acontece que a própria vida ensina e há muito ‘diplomado’ que não tem um pingo da sabedoria que uma pessoa ‘vivida’ tem. O diferencial não está nos anos de faculdade ou nos títulos adquiridos, está, sobretudo, na simplicidade de encarar a vida com gosto.

É claro que aprender é sensacional! É, inclusive, meu verbo favorito. Mas, não desprezo as sabedorias tidas como ‘menores’, aquelas aprendidas com os avós, com os pais, com os vizinhos, com as brincadeiras na rua, com as flores, com os pássaros, com o céu, com as nuvens, com o sol, com as cores etc.

‘Só sei que nada sei’ é uma frase clássica do filósofo grego Sócrates,e é também o que tento fixar em meu coração, até mesmo quando aprendo algo novo.

Embora tenha vivido pouco mais de duas décadas, já aprendi que a pretensão do saber torna altivo o olhar e tira-nos a ternura da descoberta. Isso porque o conhecimento, de certa forma, massageia o ego. 

Mas, em meio a tudo isso, o Amor nos lembra que somos pó e que é com humildade que devemos seguir nesta vida! 🙂

(…) com os humildes está a sabedoria. (Provérbios 11:2)

Visto isso, minha prece é para que a sabedoria das coisas não me tire a simplicidade do coração (nunca!).

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Cartas perto do coração

Não é novidade para ninguém que amo ler, amo livros e – principalmente – amo a Literatura Brasileira. Juntando todo esse gosto com a minha paixão por cartas, encontrei o livro ‘Cartas perto do coração’ em agosto do ano passado, no evento ‘Salão do Livro’, aqui em Belo Horizonte. Foi um achado! Dádiva! Valeu a pena a compra.

O livro foi publicado em 2011 pela Editora Record, tem 206 páginas.

Demorei para começar a leitura, pois já estava com outros livros ‘na fila’. Comecei, portanto, no final do mês passado. Embora seja um livro curto, demorei a terminá-lo porque entrei em cada carta (de corpo e alma). Marquei vários trechos legais e me aproximei ainda mais dos ‘bastidores’ de Lispector e Sabino. Experiência maravilhosa!

Para quem não sabe, Clarice Lispector (1920 — 1977) foi uma grande escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira. Contemporâneo, Fernando Sabino (1923 — 2004) também era escritor e jornalista brasileiro. 

As cartas contidas no livro são de 1946 a 1969. O assunto principal é nada mais nada menos que LIVRO! O mais atraente de cada carta é como eles falavam sobre suas escritas e anseios. O processo criativo de cada um é um mistério, mas, ao mesmo tempo, é-nos revelado.

Como sou estudante de Letras (Edição), atentei-me a detalhes de publicações da época. Clarice não estava no Brasil e se queixava por não publicarem seus livros, já Fernando compartilhava as notícias brasileiras com Clarice e a mantinha informada sobre editoras, publicações e escritores brasileiros.

Confira alguns dos trechos que mais gostei:


‘Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando e sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação recriando em si mesmo a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência.’ (Fernando Sabino, p. 24)

‘A seriedade excessiva às vezes atrapalha: a molecagem às vezes dá surpresa e fica mais séria do que a pior das seriedades.’ (Fernando Sabino, p. 67)

‘Como é que se pode ver a curva tão larga das coisas se se está tão próximo como é próximo o dia? Pois se às vezes a palavra que falta para completar um pensamento pode levar meia vida para aparecer. (Clarice Lispector, p. 98)

‘(…) um sentimento ruim é o da impaciência. (Clarice Lispector, p. 122)


Fotografei, também, a parte em que Fernando Sabino indica para Clarice a leitura de ‘Grande Sertão: Veredas’ de Guimarães Rosa (uma das minhas #UrgênciasLiterárias):

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Para quem gosta de ‘curiosidades’ literárias, vale muito a leitura.

Gostou? Aqui você encontra o livro.

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Meu primeiro self service

 

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Sua porta é muito estreita, tanto que é possível passar por ela sem percebê-la. Há em sua entrada uma escada enorme e, ao final dela, um aquário.

Meu pai, há alguns bons anos, em seus tempos de trabalho no centro da cidade, encontrou-o: o famoso ‘chinesinho’, apelido dado ao restaurante de comidas chinesas.

Eu ainda era bem menina quando, todo sábado, saía para passear com o papai. Era o máximo! Coisa divertidíssima, embora torturante.

A tortura ocorria porque em meio a tantas lojas e ‘camelôs’ (na época, eram os que mais ocupavam as ruas de Belo Horizonte), eu desejava várias coisas, as quais nem sempre eu ganhava. Chorava sempre para tentar convencer, no entanto, não adiantava.

Tudo bem! Hoje reconheço que isso fazia parte da boa educação que recebi dos meus pais.

Num sábado bem comum, meu querido pai resolveu me levar a um ‘self service’ – nome inclusive difícil para mim, na época. Meu irmão mais velho estava junto também.

Chegando lá, a ressalva foi firme, meu pai me disse: ‘coloque a quantidade que você aguenta comer, não exagere!’; é claro que acatei.

Mesmo diante daquela variedade toda, me contive e fiz meu prato. Coloquei arroz, batata frita, milho e amendoim. Pensei em coisas leves para não abusar na balança (e no preço!).

Coisa estranha a minha combinação. Pensando bem, meu prato não ficou ‘chinês’, mas o que importa é que eu me diverti.

Meu pai e meu irmão riram da minha escolha e, até hoje, relembram achando graça. O engraçado disso tudo é que nunca me esqueci desse dia.

Voltamos lá mais vezes e, aos poucos, aprendi a ‘almoçar fora’. Cresci!

E hoje vou a este restaurante mesmo sozinha, como fiz há alguns dias. Sempre que vou lá me lembro desse sábado ‘self service’ da minha infância, ele renasce em minha memória e arranca de mim sorrisos bem nostálgicos.

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